Função dispêndio e dualidade 
Disciplina: 23MICI - Microeconomia I
Docente: Paulo Victor da Fonseca
Contato: paulo.fonseca@udesc.br
Aviso
O texto que segue não tem a menor pretensão de originalidade. Ele serve apenas como registro dos principais princípios, conceitos e técnicas analíticas que são trabalhados em sala de aula.
Problema dual do consumidor
Até agora focamos no problema primal do consumidor: dados os preços de mercado e a renda exógena, quais são as quantidades de cada bem escolhidas que maximizam sua utilidade
Muitos dos problemas de maximização com restrições possuem um problema dual associado de minimização com restrições
Para o caso específico de maximização de utilidade sujeito à restrição orçamentária, o problema dual de minimização associado consiste em alocar a renda de um indivíduo de maneira a atingir um nível específico de utilidade com o menor gasto possível
Problema dual da minimização de dispêndio Fonte: Nicholson e Snyder (2019)
O dispêndio (ou gasto) do consumidor com a cesta de bens $\mathbf{x} = (x_1, x_2, \dots, x_n)$ é dado por:
$$E = p_1 x_1 + p_2 x_2 + \dots + p_n x_n = \sum_{i=1}^n p_i x_i$$
O problema dual de minimização de dispêndio do consumidor é, então, dado por:
$$\begin{eqnarray}&\min_{x_1, \dots, x_n}& p_1 x_1 + p_2 x_2 + \dots + p_n x_n \tag{1}\label{aula6_eq1}\\ &\text{s.a. }& U(x_1, x_2, \dots, x_n) = \bar{U}\end{eqnarray}$$
Ou seja, o consumidor minimiza seus gastos de forma a manter um certo nível de utilidade $\bar{U}$ que deseja alcançar
Para os casos de pontos ótimos interiores, podemos resolver o problema de minimização utilizando o método dos multiplicadores de Lagrange
O Lagrangeano associado ao problema ($\ref{aula6_eq1}$) é dado por:
$$\mathcal{L} = p_1 x_1 + \dots + p_n x_n + \mu\left[\bar{U} - U(x_1, x_2, \dots, x_n)\right]$$
As condições necessárias de primeira ordem associadas são dadas pelo seguinte sistema de $n + 1$ equações simultâneas em $n + 1$ variáveis:
$$\begin{eqnarray} p_1 &=& \mu^* \frac{\partial U}{\partial x_1}(x_1^*, x_2^*, \dots, x_n^*) \\ p_2 &=& \mu^* \frac{\partial U}{\partial x_2}(x_1^*, x_2^*, \dots, x_n^*) \\ &\vdots \tag{2}\label{aula6_eq2}& \\ p_n &=& \mu^* \frac{\partial U}{\partial x_n}(x_1^*, x_2^*, \dots, x_n^*) \\ \bar{U} &=& U(x_1^*, x_2^*, \dots, x_n^*)\end{eqnarray}$$
Note que as $n$ primeiras CPOs são idênticas às CPOs do problema primal do consumidor de maximização de utilidade
A condição de que a TMS entre dois bens iguale a razão entre seus preços de mercado permanece válida
Portanto, a solução interior do problema dual do consumidor também satifaz a condição de tangência entre a curva de indiferença associada à utilidade $\bar{U}$ e a reta de dispêndio
Apenas a última CPO é diferente, pois nos diz que o consumidor deseja consumir a cesta de consumo ótima que garanta um nível de utilidade igual à $\bar{U}$
Demandas compensadas (ou Hicksianas)
As quantidades ótimas consumidas $x_1^*, \dots, x_n^*$ neste problema são funções dos preços dos bens $(p_1, \dots, p_n)$ e do nível de utilidade desejado $\bar{U}$
Caso algum dos preços se altere, ou a meta de utilidade desejada, a cesta de consumos ótima também irá ser alterada
Definição 6.1 - Função Dispêndio
A função dispêndio do consumidor nos mostra os gastos mínimos necessários para atingir um determinado nível de utilidade para um dado vetor de preços. Formalmente:
$$\text{dispêndios mínimos } = E(p_1, p_2, \dots, p_n, \bar{U})\tag{3}\label{aula6_eq3}$$
Função dispêndio e função utilidade indireta
A Definição 6.1 nos mostra que a função dispêndio, que também é uma função valor, e a função utilidade indireta são inversas
As funções demanda do problema dual do consumidor são funções dos preços e do nível de utilidade:
$$\begin{eqnarray}x_1^h &=& x_1^h(p_1, p_2, \dots, p_n, \bar{U}) \\ x_2^h &=& x_2^h(p_1, p_2, \dots, p_n, \bar{U}) \\ &\vdots& \tag{4}\label{aula6_eq4}\\ x_n^h &=& x_n^h(p_1, p_2, \dots, p_n, \bar{U})\end{eqnarray}$$
Essas funções de demanda são denominadas demandas Hicksianas (ou demandas compensadas)
Demandas Hicksianas e Demandas Marshallianas
As demandas Hicksianas (compensadas) são funções dos preços e do nível de utilidade!
As demandas Marshallianas (não-compensadas) são funções dos preços e do nível de renda!
As funções de demandas Hicksianas também são chamadas demandas compensadas pois elas "compensam" o consumidor de modo a mantê-lo sempre na mesma curva de indiferença $\bar{U}$
Demandas Hicksianas ou compensadas Fonte: Notas de aula - José Guilherme de Lara Resende (UnB)
A demanda Hicksiana não é diretamente observável, pois depende do nível de utilidade $\bar{U}$
A demanda Marshalliana, por sua vez, é diretamente observável pois depende apenas dos preços unitários dos bens e da renda - variáveis mensuráveis
Substituindo as funções de demanda Hicksianas no gasto do consumidor, obtemos a função dispêndio que definimos anteriormente:
$$E(p_1, p_2, \dots, p_n, \bar{U}) = p_1x_1^h(p_1, \dots, p_n, \bar{U}) + \dots + p_nx_n^h(p_1, \dots, p_n, \bar{U})$$
A função dispêndio mostra o gasto mínimo necessário para se alcançar o nível de utilidade $\bar{U}$, aos preços $\mathbf{p} = (p_1, \dots, p_n)$ de mercado
O multiplicador de Lagrange, $\mu$, representa o custo marginal incorrido para se obter uma unidade adicional de utilidade
Existe uma relação entre o multiplicador de Lagrange associado ao problema dual, $\mu$, com o multiplicador de Lagrange $\lambda$ do problema primal:
$$\left(\mu = \frac{p_i}{U_i}\right) \wedge \left(\lambda = \frac{U_i}{p_i}\right) \Rightarrow \mu = \frac{1}{\lambda}$$
Portanto, o multiplicador de Lagrange associado ao problema de minimização é o inverso do multiplicador de Lagrange do problema de maximização
Exercícios
Função Cobb-Douglas. Dados $U(x,y) = x^{0,5}y^{0,5}$ e $I = p_x x + p_yy$, a função utilidade indireta é dada por:
$$V(p_x, p_y, I) = \frac{I}{2p_x^{0,5}p_y^{0,5}}$$
Usando o resultado de que a função dispêndio é o inverso da utilidade indireta, calcule a função dispêndio.
Mostre que este resultado é o mesmo obtido quando resolvemos o problema de minimização restrito.
Mostre, também, que para $p_x = 1, p_y = 4$ e uma meta de utilidade $\bar{U} = 2$, o nível mínimo de dispêndio é $I = 8$.
Se o preço do bem $y$ aumentar de $4 para $5, qual a compensação monetária o indivíduo necessita para manter o mesmo nível de utilidade?
Resolução
Como função dispêndio é a inversa da função utilidade indireta, temos que:
$$E(p_x, p_y, \bar{U}) = 2p_x^{0,5}p_y^{0,5}\bar{U}$$
Na lousa.
$E(1, 4, 2) = 2 \times 1 \times 2 \times 2 = 8$
$E(1, 5, 2) = 2 \times 1 \times \sqrt{5} \times 2 \approx 8,94$
Portanto, este consumidor precisa de uma compensação monetária de $0,94 para manter o mesmo nível de utilidade
Bens complementares. Dada a função utilidade $U(x,y) = \min\{x, 4y\}$, podemos calcular a função utilidade indireta:
$$V(p_x, p_y, I) = \frac{I}{p_x + 0,25p_y}$$
Usando o resultado de que a função dispêndio é o inverso da utilidade indireta, calcule a função dispêndio.
Dados $p_x = 1, p_y = 4$ e uma meta de utilidade $\bar{U} = 4$, obtemos o dispêndio total de $8 como no exercício anterior.
Neste caso, se o preço do bem $y$ aumentar de $4 para $5, os gastos deste consumidor deveriam aumentar em quanto para manter o mesmo nível de utilidade?
Resolução
Como função dispêndio é a inversa da função utilidade indireta, temos que:
$$E(p_x, p_y, \bar{U}) = (p_x + 0,25 p_y)\bar{U}$$
$E(1, 4, 4) = (1 + 0,25 \times 4) \times 4 = 8$
$E(1, 5, 4) = (1 + 0,25 \times 5) \times 4 = 9$
Portanto, este consumidor precisa de uma compensação monetária de $1 para manter o mesmo nível de utilidade
🚩 Apesar de a compensação ser aproximadamente a mesma nos dois casos. Sob proporções fixas, essa unidade extra de compensação de renda permitirá apenas que o consumidor continue adquirindo a mesma cesta anterior ($x = 4, y = 1$). Esta é a única maneira de restaurar sua utilidade $U = 4$.
No caso Cobb-Douglas, no entanto, este consumidor não utilizaria sua compensação extra para continuar adquirindo a mesma cesta de consumo anterior. Ao invés disso, o processo de maximização de utilidade requer que sua renda compensada de $8,94 seja realocada. Neste caso, $x^* = 4,47$ e $y^* = 0,894$. O nível de utilidade continua sendo $U = 2$, no entanto, este indivíduo agora irá economizar mais na aquisição do bem mais caro $y$
Propriedades da função dispêndio
Homogeneidade
As funções dispêndio são homogêneas de grau um em todos os preços.
Funções homogêneas de grau k
Uma função $f(x_1, \dots, x_n)$ é dita homogênea de grau $k$ se:
$$f(tx_1, tx_2, \dots, tx_n) = t^kf(x_1, x_2, \dots, x_n), \qquad \forall t\geq 0$$
Isto quer dizer que, se todos os preços unitários dos bens dobrarem, então, a renda dispendida também deve dobrar para que o consumidor permaneça na mesma curva de indiferença
Função Cobb-Douglas. Vimos que a função dispêndio associada a uma função utilidade do tipo Cobb-Douglas $U(x,y) = x^{0,5}y^{0,5}$ é dada por:
$$E(p_x, p_y, U) = 2p_x^{0,5}p_y^{0,5}U$$
Mostre que esta função é homogênea de grau 1 nos preços
Resolução
$$\begin{eqnarray}E(tp_x, tp_y, U) &=& 2(tp_x)^{0,5}(tp_y)^{0,5}U \\ &=& t[2p_x^{0,5}p_y^{0,5}U] = tE(p_x, p_y, U)\end{eqnarray}$$
Bens complementares. Vimos que a função dispêndio associada a uma função utilidade de proporções fixas $U(x,y) = \min\{x, 4y\}$ é dada por:
$$E(p_x, p_y, U) = (p_x + 0,25p_y)U$$
Mostre que esta função é homogênea de grau 1
Resolução
$$\begin{eqnarray}E(tp_x, tp_y, U) &=& (tp_x + 0,25tp_y)U \\ &=& t[p_x + 0,25p_y]U = tE(p_x, p_y, U)\end{eqnarray}$$
Não decrescente nos preços
As funções dispêndio são não-decrescentes nos preços:
$$\frac{\partial E(p_1, \dots, p_i, \dots, p_n, U)}{\partial p_i} \geq 0, \qquad \forall i \in (1, \dots, n)$$
Como a função dispêndio nos diz o gasto mínimo necessário para que o consumidor atinja um nível específico de utildiade, um aumento de preços em um bem qualquer deve aumentar (ou ao menos não diminuir) esse gasto mínimo
Suponha que o preço de um bem aumente e todos os demais permaneçam constantes
Seja $A$ a cesta de consumo adquirida antes do aumento de preços, e $B$ a cesta de consumo adquirida após o aumento depreços
Claramente, a cesta $B$ custa mais após o aumento de preços do que custava anteriormente
No entanto, $B$ antes do aumento de preços custava mais que a cesta $A$ - pois $A$ é a cesta ótima que minimiza o dispêndio do consumidor para um dado nível de utilidade
Portanto, a cesta de consumo $A$ custa menos que a cesta de consumo $B$ antes do aumento de preços que, por sua vez, custa menos que a cesta de consumo $B$ após o aumento de preços
Logo, a cesta de consumo escolhida após o aumento de preços $B$ custa mais que a cesta escolhida antes do aumento de preços $A$
Ou seja, a função dispêndio é não-decrescente nos preços
Côncava nos preços
A função dispêndio $E(\mathbf{p}, \bar{U})$ é côncava nos preços, ou seja, o gráfico da função dispêndio está sempre abaixo de retas tangentes a ele
Função dispêndio: concavidade nos preços Fonte: Nicholson e Snyder (2019)
A Figura acima mostra a função dispêndio de um consumidor em função de um único preço, $p_1$
Ao preço inicial, $p_1^*$, o gasto mínimo deste indivíduo é dado por $E(p_1^*, \dots)$
Considere, agora, preços maiores ou mais baixos que $p_1^*$
Se o indivíduo continuasse adquirindo a mesma cesta de consumo, seus gastos aumentariam ou diminuiriam linearmente com as mudanças de preços
Isso corresponde à função pseudodispêndio - ou dispêndio passivo - $E^{\text{pseudo}}$ na figura
Esta reta mostra o nível de gastos que permitiria a aquisição da cesta de consumo original independemente da variação de preços
Se, no entanto, o indivíduo ajustar sua compra à medida que $p_1$ muda, sabemos que (em decorrência da minimização de gastos) os gastos reais seriam menores que esse gasto passivo
Portanto, a função dispêndio real, $E$, ficará abaixo de $E^{\text{pseudo}}$ em todos os pontos (exceto no próprio $p_1^*$) e, portanto, a função será côncava
Um resultado da concavidade nos preços é que:
$$f_{ii} = \frac{\partial^2 E}{\partial p_i^2} \leq 0$$
precisamente o que observamos na Figura
Concavidade nos preços
A concavidade nos preços da função dispêndio é um dos resultados mais importantes da aula de hoje e será uma propriedade útil para inúmeras aplicações
Sobretudo para as relacionadas ao efeito substituição das mudanças de preços - que estudaremos nas próximas aulas
📚 Bibliografia
NICHOLSON, W.; SNYDER C. Teoria microeconômica: Princípios básicos e aplicações. Cengage Learning Brasil, 2019
VARIAN, H. R. Microeconomia: uma abordagem moderna. 9.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015